terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Construção e Demolição de uma "Estória" parte X

A verdadeira história da “morte” de Aron Uth Khan (pai do personagem do Segundo)

A história inicial que agregou as personagens do jogo dizia respeito à tomada da propriedade da família Khan por parte de um misterioso comerciante conhecido apenas pelo nome de Attica, recém chegado à cidade portuária de Caergoth. A propriedade da família Khan estava abandonada sendo que nenhum dos três herdeiros encontrava-se na cidade.
Um desses herdeiros é o personagem do Segundo que retorna da Guerra da Lança para sua cidade natal acompanhado de dois camaradas em armas – personagem do Andre (meio-ogro) e o personagem do Mauricio (humano, e um dos sete únicos clérigos verdadeiros de Sirrion no mundo após o retorno dos deuses, ainda que nem ele mesmo soubesse ser um clérigo da religião de Sirrion).
Attica, na verdade, era um clérigo de Chemosh (ou Aeleth) –deus da morte. Ele queria as terras da família Khan porque delas emanava uma energia maléfica e sinistra que lhe proporcionava poderes excepcionais para sua experiências, principalmente no que diz respeito à transformação dos mortos em mortos-vivos. Attica não chegou a essas terras amaldiçoadas por acaso. Ele foi instruído a procurá-las por seu mestre – o “Irmão Sombrio” citado em seu diário. Aqui vale algumas explicações sobre referencias literárias e religiosas colocadas na aventura. Na abertura do diário de Attica há um poema escrito em Kharolian (Kharolis é a terra natal do clérigo). Segue o poema:

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the center cannot hold
Mere anarchy is loosed upon the world.

O poema pertence a William Butler Yeats, poeta, dramaturgo e místico irlandês (para mais infos http://pt.wikipedia.org/wiki/Yeats). Chamado “The Second Coming” o poema utiliza-se do imaginário cristão, mais especificamente o Apocalipse e foi escrito ao final da primeira guerra mundial. A alusão ao giro sem controle e “selvagem” que a tudo consome e que nos priva de nossos sentidos (“The falcon cannot hear the falconer”) ocasionando o despedaçamento do mundo (“Things fall apart”) é perfeito para descrever os objetivos de uma religião voltada para a morte que consome a vida, que a tudo consome. A segunda vinda de Cristo, referida no Livro das Revelações na Bíblia, é no poema descrita como a chegada de uma força das trevas com terríveis propósitos. O que encaixa perfeitamente com as profecias ligadas à religião de Chemosh criadas (pelo mestre) que dizem respeito à chegada de Aeleth/Chemosh em Dragolance. A segunda vinda seria o retorno da divindade da morte a esse mundo, mas esse retorno seria materializado na forma de seu Avatar. Retorno possível apenas após a chegada de três cavaleiros (Chemosh seria então o quarto) que trarão os sinais da chegada da Morte a todos. Aqui, os quatro cavaleiros são uma referência clara aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Morte, Guerra, Fome e Peste. A idealização da cavalaria cristã, como muitas outras imagens baseadas nas revelações bíblicas, possui uma dualidade. Se por um lado — teoricamente — ela era portadora de boas novas, defensora dos oprimidos e da verdadeira fé, também era anunciadora do final dos tempos, aquela que trazia toda sorte de desgraças para os homens.
No diário de Attica há uma referência a esses cavaleiros: “Mas ele é o primeiro. Ele é a sombra negra que cavalga o branco... Talvez haja uma maneira. Sim, talvez isso já fosse predestinado por Aeleth. Sim, sim, devo me tornar o espectro que cavalga o vermelho...” Na Bíblia os quatro cavaleiros são reconhecidos pelos cavalos que cavalgam: o primeiro cavalga o branco, o segundo cavalga o vermelho, o terceiro o negro e o quarto cavalga o cavalo baio. Então, “a sombra negra que cavalga o branco” é uma referência ao primeiro cavaleiro que já anda entre nós – o “Irmão Sombrio” – que representa a Guerra. Na Bíblia a Guerra seria representada pelo cavaleiro do cavalo vermelho, ou seja, o segundo, mas eu tomei algumas liberdades criativas. Então, na minha história, o primeiro (cavalo branco) seria a guerra, o segundo (vermelho) seria a peste – que era a pretensão de Attica (lembremos que poderia ser possível se os heróis não tivessem se intrometido na história, já que devemos atentar pelo fato de qualquer religião ter poucos clérigos nesse período da história de dragonlance – o retorno dos deuses e de seus poderes –ainda mais clérigos poderosos, e devemos considerar Attica (5º level) como poderoso, visto a já citada carência de clérigos no mundo), o terceiro (negro) a fome o quarto (baio) a Morte/Chemosh.
Mas quem é o Irmão Sombrio?
É o pai do personagem do Segundo – Aron Uth Khan - que se torna um Cavaleiro da Morte (Death Knight), Bispo da Igreja de Chemosh em dragonlance e líder e Dragonlord do Exército do Dragão Branco.
Aqui voltamos a verdadeira história da”morte” de Aron Uth Khan. Na verdade, apesar de tomar em casamento uma segunda esposa Aron nunca conseguiu superar a morte de sua primeira esposa e mãe de seus três primeiros filhos – vítima da peste. Seu amor se tornou um apego doentio. As preces ao patrono da família, Kiri Jolith, nunca aliviaram seu coração. Na verdade seu coração tornou-se amargo e distorcido, culpando as divindades pela morte de sua amada e por não retorná-la aos seus braços. Desenvolveu uma idéia derrotista da brevidade e da fragilidade da vida humana e começou a ter devaneios doentios sobre a vida eterna a qualquer custo. A situação frágil – espiritual e mental – de Aron o tornou presa de forças sombrias, egoístas e perigosas. Pouco a pouco sua atenção, seu coração e sua lealdade se voltaram a um culto da morte. Se dominasse a morte, talvez ele pudesse dominar a vida e então obter o amor de sua esposa novamente. Dominado pela dualidade e pelos conflitos internos que colocavam em conflito uma vida de resignação, controle e disciplina vivida através do Código e da Medida dos Cavaleiros e sua dor e seus devaneios pela morte de sua esposa, Aron enlouqueceu e praticou o ato que o levou definitivamente para o lado sombrio de seu coração. Massacrou sua esposa, os criados e seu quarto filho – de poucos meses de idade. Amaldiçoado pelos deuses por ato tão abissal tornou-se um Cavaleiro da Morte e fugiu para terras distantes.
Por isso seu corpo nunca foi encontrado e por isso Attica tinha conhecimento das energias sinistras que habitavam aquela propriedade. Energias originárias do ato de traição do próprio Aron Uth Khan.
Qual era o objetivo, então, da primeira aventura nesta campanha? Além de agregar os personagens é claro, era introduzir o antagonista principal, mesmo que apenas pistas de quem seria. O Irmão Sombrio, com seu poder, estava reorganizando o Exercito do Dragão Branco White Dragonarmie). Aos personagens, aos poucos, caberia derrotá-lo. Qual seria a conseqüência se isso não ocorresse? O crescimento da Dragonarmie em todo continente liderados pelo Irmão Sombrio a frente do Exercito do Dragão Branco e por Kitiara a frente do Exercito do Dragão Azul (lembremos que ao fim da Guerra da Lança, Kitiara é a principal líder da Dragonarmie mantendo suas forças leais e o controle sobre os Dragões Azuis). Na verdade o aparecimento do Irmão Sombrio como uma personagem importante na política de Dragonllance se deve a uma aliança religiosa entre Chemosh e a Igreja de Takhsis. O retorno do deus da Morte, na forma de Avatar, seria, então, uma das maquinações de Takhsis para levar a cabo seus objetivos.
O que eu queria era colocar os personagens no meio de uma grande “Guerra Religiosa”. Explico. Uma aliança entre divindades do mal foi feita. Takhsis/Chemosh tem o mesmo objetivo: acabar com a vida em Dragonlance, consumir a tudo e a todos. Uma aliança dessas é uma clara a ameaça ao equilíbrio de forças. É natural que as divindades do Bem e da Neutralidade comecem a agir também. Não de forma direta (como sempre), mas através de pequenas intervenções indiretas. Exemplo: se o personagem do Segundo e seu irmão não tivessem ido a uma viagem no campo seriam também mortos por seu pai quando este enlouqueceu. Quem os retirou de casa para essa viagem foi Kirith “Lâmina Justa”, amigo da família e reconhecido Cavaleiro de Caergoth, e também a encarnação na terra da divindade Kiri Jolith. Ora, Chemosh “roubou” de Kiri Jolith um importante seguidor a aprtir da traição e do enlouquecimento de Aron – Cavaleiro e Nobre. Existe aqui também uma luta por poder, seguidores valiosos para os deuses significa aumento de seu poder e de seus ideais. Quando um episódio como o ocorrido acontece ele equivale a uma declaração de guerra, mesmo que não uma guerra aberta.
O que acontece é que Chemosh escolheu sua peça (Aron Uth Khan) e Kiri Jolith também (Hirion Uth Khan – personagem do Segundo). Mas existem outras peças nesse tabuleiro. Habbakuk – irmão de Kiri Jolith, sendo ambos filhos de Paladine, principal divindade do panteão do bem – decide tomar partido também. É aí que são introduzidos os personagens elfos da Valéria (qualinesti) e do Rato (kagonesti).
Continua...