sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Batalha no forte

Estava no alto da colina, tinha somente uma visão afastada do forte; logo os batedores desceram, com o intuito de descobrirem pontos estratégicos e informações mais detalhadas para que pudéssemos traçar nossos planos de resgate.
A tarde passou sem qualquer notícia deles, soubemos mais tarde que o Kipp conseguiu observar dentro da casa grande, mas foi interrompido por uma escuridão que alguém dentro da casa tinha conjurado, havia pelo menos um mago ou um clérigo entre eles, não eram simplesmente bandidos de beira de estrada, eram pessoas treinadas para lutar. Três homens abandonaram o forte e seguiram caminho pela estrada. Maulraux e Kipp abordaram os homens e mataram dois deles, o terceiro foi amordaçado, tinham a intenção de interrogá-lo, porém um grupo de 10 homens vindos do forte apareceu na estrada; o suposto refém foi abandonado e nossos amigos fugiram, voltando para a colina. O forte sabia da presença de pessoas estranhas na redondeza e desconfiados melhoraram a guarda interna.
Esperamos o entardecer e avançamos até o local onde os reféns estavam presos, porém fomos descobertos ao tentarmos pular a muralha e tochas foram lançadas na nossa direção. Corremos ao redor do forte chegando perto do lago; graças à Sêlune a noite estava clara e pudemos nos movimentar com facilidade. Nos dividimos em dois grupos: o bárbaro, o mago/clérigo e eu, no outro o drow e o menino. Nossa prioridade era salvar o grupo de cativos, enquanto um grupo fazia o resgate, nós chamaríamos a atenção para um outro ponto. Antes de avançarmos estabelecemos um plano de fuga, caso nossa empreitada falhasse.
Utilizamos das magias que pudessem gerar maior proteção, e fizemos com que o bárbaro fosse protegido e seu ataque aperfeiçoado (ele também cresceu, tinha quase uns três metros) também recebeu uma magia que permitiu que pudesse escalar as toras da muralha com maior facilidade. Me concentrei e fiz uma névoa obscurescente ao nosso redor para nos proteger das flechas vindas das torres, mas pouco tempo depois começou a soprar um vento forte, que espalhou a névoa com uma rapidez incomum. O bárbaro me carregou, juntamente com o Novartis muralha acima, ao pousarmos do outro lado fomos recebidos por uma leva de soldados e mesmo com a névoa recebemos ataque de flechas, algumas envenenadas que diminuíram a força do bárbaro, porém parecia que ele não sentia nem as dores do ataques.
O cheiro de morte estava em todo lugar, o ar estava denso, cheirava a ferro vindo do sangue, gritos de dor e agonia misturados aos urros de raiva, lâminas se chocando, o som do martelo destroçando corpos, à luz bruxuleante das fogueiras a cena tornava-se mais assustadora beirando o irreal. Mas ao mesmo tempo havia a sensação de vitória que vinha a cada inimigo derrubado...
Flechas zuniam perto de nós e soldados armados com espadas avançavam em nossa direção, aqui raios de luz surgiam como resposta, logo mais, flechas e marteladas; cada um empenhado dando o máximo da sua arte.
O bárbaro estava coberto de sangue, dele próprio e em grande parte das pessoas que ele eliminava. Mal dava tempo dos inimigos se reorganizarem tal era a velocidade com que ele derrubava e destroçava. Em uma das torres ele avançou munido de seu martelo que emitia um som que por si só já assustava e desferiu um golpe preciso o suficiente para liquidar os arqueiros que estavam lá.
Os sons foram diminuindo até restar somente as vozes conhecidas das pessoas que compõe o nosso grupo. A nossa volta só havia corpos e destroços. Restava ainda uma última ameaça, talvez a maior e mais perigosa... a casa grande.
Nos reorganizamos para olhar dentro da casa, Maulraux tomou a dianteira. Os inimigos já esperavam pela nossa iniciativa e estavam organizados, dispararam flechas e uma envenenada atingiu em cheio o droll (não pude fazer nada...).
O bárbaro começou a ficar estranho, sua face estava transfigurada em uma máscara sangüinaria, um olhar destruidor e ensandecido dardejava morte, ele avançou sobre homens que estavam fugindo amedrontados e desferiu mais golpes fatais, não havia clemência.
A casa estava repleta de inimigos, havia magos e até mesmo um meio-ogro, a cada cômodo novos ataques; me surpreendi com o menino que escondeu-se em uma esquina do corredor e sozinho atacou e silenciou um mago antes mesmo que ele pudesse perceber de que direção vinha as flechadas. Foi lá que nos defrontamos com o chefe deles, e lá ele recebeu vários golpes até a morte alcança-lo.
Utilizei de todos os poderes concedidos pela minha deusa para salvá-los, estava esgotada... havia muita dor, muitas mortes, sangue por todos os lados e muito corpos. Juntamos esforços, nossas últimas forças para recolher os corpos e cremá-los. Que os deuses possam olhar por todos nós.
O bárbaro decepou a cabeça do chefe deles e de mais um homem, amarrou essas duas cabeças em seu cinto (nesse momento ele estava parecido com o homem das garras) e arrastou os corpos para empalá-los; inutilmente me coloquei na sua frente junto com o Kipp, para impedi-lo de cometer essa sandice, mas ele permaneceu irredutível na sua decisão. Vi o mal tomando conta dele.
Conversei muito com ele, expliquei que não havia a necessidade de carregar a cabeça do chefe para recebermos a recompensa, que o capitão do forte confiava em nós, uma vez que o salvamos das maldades daquele clérigo no cemitério. Ele se acalmou e devolveu as duas cabeças para que pudéssemos cremá-las, oferecendo assim o mínimo de respeito por eles.
O drow não passou a noite conosco, seguiu o rastro deixado pelos recém libertos reféns. Permaneci com o restante do grupo na casa grande para descansar. Pela manhã juntamos os mantimentos e animais que seriam úteis. Ao deixar o local senti um grande alívio, a luz do dia a cena era mais aterradora. Uni meu coração ao da Grande Deusa Sêlune, roguei pelos que ali haviam feito a viagem de retorno.
Alcançamos o restante do grupo ao entardecer, avançamos lentamente devido os animais e a carga que transportávamos.
Foi grande a alegria das pessoas que reencontravam seus familiares há muito apartado deles. A cidade ficou agradecida pelo tanto que contribuímos para a reestabilização daquele local.
Aproveitamos para descansar, reparar nossas armaduras e nos prepararmos para retomar a viagem. Acho que entre as pessoas do local os nossos feitos tornaram-se uma lenda, com o tempo talvez só as crianças acreditem que há muito tempo atrás um grupo pouco ortodoxo enfrentou mortos-vivos, ressuscitou um mago, ergueu um monumento a vida onde antes só havia sombras e tomou um forte em apenas algumas horas...
Lunara

domingo, 18 de novembro de 2007





O animal que indaga o vento,

que perscruta o céu

e explora o divino.

E eu?

Indago a terra?

Perscruto o chão?

exploro a vida...(ou tento).

Anômimo.

(A imagem é gravura de Katsushika Hokusai).

sábado, 3 de novembro de 2007

Ordem do Martelo - Crônicas


A Glória pela Espada - Segunda parte



Com um gesto de mão, Amhar chamou Cedorn e se dirigiu ao grande salão de Vau d’Água. Os outros seis esperaram sob a chuva, procurando abrigo debaixo da plataforma de uma das torres. Todos os olhos estavam sobre eles e, embora não pudessem ser ouvidos percebia-se, pelo comportamento gestual das pessoas no local, que sussurros espalhavam-se pela fortaleza.
Horas pareceram ter passado. A chuva continuava a se precipitar incessantemente. Sopa e pão foram trazidos para os seis homens que continuavam esperando, encapuzados, debaixo da torre sul. A porta do grande salão abriu-se e de dentro saiu um homem barbudo de meia-idade disparando ordens para os soldados do lado de fora. Amhar e Cedorn apareceram à seguir e se dirigiram à seus companheiros.
Amhar, apesar de não ser o mais velho do grupo, era um guerreiro extremamente experiente. Devia possuir cerca de quarenta anos, vinte e cinco dos quais vividos em campos de batalha e casernas. Um homem cuja personalidade havia sido forjada para e pela espada. Austero e resoluto. Possuidor de algumas dezenas de cicatrizes e de estatura superior à mediana, seus longos cabelos já haviam trocado a matiz dourada pela cinza, enquanto sua barba era uma amalgamação de gradações entre o áureo e o gris. Seus olhos negros carregavam uma intransigência cujo limite poderia se confundir com a crueldade. A crueldade de um soldado. Em sua cintura carregava um martelo de guerra com um rubi vermelho incrustado no fim da empunhadura: símbolo do poder de comando e do direito de impor punição sobre seus iguais. Além do capuz e das roupas normais que utilizava, carregava um fardo, cingido por um grosso tecido, e um escudo circular de madeira e couro, pintado com um martelo de guerra vermelho, símbolo da Ordem, e uma raposa negra, seu símbolo pessoal.
Cedorn, entre os oito martelos, era aquele que havia visto o maior número de primaveras. Seu corpo, apesar de já enrugado, era forte e sadio. O crânio era liso e seu diferencial era, com certeza, sua mente ágil e seu espírito agudo, arrebatado pela certeza de sua fé na Água, no Trovão e no Relâmpago. A trindade de elementos comandada pelo patrono da Ordem do Martelo, Bel. Seu braço esquerdo era inútil para a guerra. Herança de um ferimento causado por um mago Comata, nas Guerras Orientais com a cidade-Estado de Canistorgis. Vestia uma armadura de couro surrada, mas de ótimo material e manufatura. O peitoral da armadura possuía a constelação de Sagitário em baixo relevo. Ornamentada com fios de prata, o desgaste da peça ficava evidente através da existência de algumas falhas no desenho. Preso ao pescoço por uma corrente de prata havia um amuleto. A peça consistia de um círculo de prata de dois centímetros de raio com um martelo de rubi incrustado, e circundado por um fio de ouro. Na cintura carregava uma espada curta embainhada e um cinto com vários alforjes. Foi o primeiro a falar ao grupo de homens:
- Os augúrios estão sempre presentes. Nossa tarefa é apenas reconhecer e então agir em relação à irmandade de todas as coisas. Mas na maioria das vezes estamos cegos ou somos prepotentes demais para reconhecer os sinais. Alegrem-se meus amigos! – um sorriso jocoso surgiu em seu rosto.
- Assim como a chuva se derrama sobre este solo, sangue será derramado também – sentenciou.
Seus companheiros, apesar de pouco entenderem sobre o que o velho Cedorn falava, se divertiam, como sempre, com suas palavras.
Amhar, então, falou.
- Não estamos lidando com um mero grupo de pilhagem orc... Segundo o capitão de Vau d’Água há um bando de guerra pronto para atravessar a Passagem Sul – a chuva pareceu precipitar-se ainda mais forte, se é que era possível, trazendo consigo estrondorosos trovões que podiam ensurdecer um homem.