sábado, 3 de novembro de 2007

Ordem do Martelo - Crônicas


A Glória pela Espada - Segunda parte



Com um gesto de mão, Amhar chamou Cedorn e se dirigiu ao grande salão de Vau d’Água. Os outros seis esperaram sob a chuva, procurando abrigo debaixo da plataforma de uma das torres. Todos os olhos estavam sobre eles e, embora não pudessem ser ouvidos percebia-se, pelo comportamento gestual das pessoas no local, que sussurros espalhavam-se pela fortaleza.
Horas pareceram ter passado. A chuva continuava a se precipitar incessantemente. Sopa e pão foram trazidos para os seis homens que continuavam esperando, encapuzados, debaixo da torre sul. A porta do grande salão abriu-se e de dentro saiu um homem barbudo de meia-idade disparando ordens para os soldados do lado de fora. Amhar e Cedorn apareceram à seguir e se dirigiram à seus companheiros.
Amhar, apesar de não ser o mais velho do grupo, era um guerreiro extremamente experiente. Devia possuir cerca de quarenta anos, vinte e cinco dos quais vividos em campos de batalha e casernas. Um homem cuja personalidade havia sido forjada para e pela espada. Austero e resoluto. Possuidor de algumas dezenas de cicatrizes e de estatura superior à mediana, seus longos cabelos já haviam trocado a matiz dourada pela cinza, enquanto sua barba era uma amalgamação de gradações entre o áureo e o gris. Seus olhos negros carregavam uma intransigência cujo limite poderia se confundir com a crueldade. A crueldade de um soldado. Em sua cintura carregava um martelo de guerra com um rubi vermelho incrustado no fim da empunhadura: símbolo do poder de comando e do direito de impor punição sobre seus iguais. Além do capuz e das roupas normais que utilizava, carregava um fardo, cingido por um grosso tecido, e um escudo circular de madeira e couro, pintado com um martelo de guerra vermelho, símbolo da Ordem, e uma raposa negra, seu símbolo pessoal.
Cedorn, entre os oito martelos, era aquele que havia visto o maior número de primaveras. Seu corpo, apesar de já enrugado, era forte e sadio. O crânio era liso e seu diferencial era, com certeza, sua mente ágil e seu espírito agudo, arrebatado pela certeza de sua fé na Água, no Trovão e no Relâmpago. A trindade de elementos comandada pelo patrono da Ordem do Martelo, Bel. Seu braço esquerdo era inútil para a guerra. Herança de um ferimento causado por um mago Comata, nas Guerras Orientais com a cidade-Estado de Canistorgis. Vestia uma armadura de couro surrada, mas de ótimo material e manufatura. O peitoral da armadura possuía a constelação de Sagitário em baixo relevo. Ornamentada com fios de prata, o desgaste da peça ficava evidente através da existência de algumas falhas no desenho. Preso ao pescoço por uma corrente de prata havia um amuleto. A peça consistia de um círculo de prata de dois centímetros de raio com um martelo de rubi incrustado, e circundado por um fio de ouro. Na cintura carregava uma espada curta embainhada e um cinto com vários alforjes. Foi o primeiro a falar ao grupo de homens:
- Os augúrios estão sempre presentes. Nossa tarefa é apenas reconhecer e então agir em relação à irmandade de todas as coisas. Mas na maioria das vezes estamos cegos ou somos prepotentes demais para reconhecer os sinais. Alegrem-se meus amigos! – um sorriso jocoso surgiu em seu rosto.
- Assim como a chuva se derrama sobre este solo, sangue será derramado também – sentenciou.
Seus companheiros, apesar de pouco entenderem sobre o que o velho Cedorn falava, se divertiam, como sempre, com suas palavras.
Amhar, então, falou.
- Não estamos lidando com um mero grupo de pilhagem orc... Segundo o capitão de Vau d’Água há um bando de guerra pronto para atravessar a Passagem Sul – a chuva pareceu precipitar-se ainda mais forte, se é que era possível, trazendo consigo estrondorosos trovões que podiam ensurdecer um homem.

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