quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Algumas considerações sobre o Bushidô e os samurais

Para os personagens que gostam de ser "lawful" e ter obrigações...


O papel do samurai era simples: sua obrigação consistia em lutar e, se necessário, morrer por seu amo.

Uma conhecida frase contida em Hagakure (1716), o livro sagrado do samurai (de Tsunetomo Yamamoto - 1659-1719 - súdito do feudo de Saga), diz: “A filosofia de bushi está na morte”. Isso significa que “mesmo sendo chamado de morte fútil, quando estiver no limiar entre a vida e a morte, deve-se posicionar para o lado da morte. Não há necessidade de pensar se essa atitude seria fiel ou infiel, leal ou desleal. Simplesmente ensina-se para escolher a morte. Bushidô é pensar toda manhã na sua forma de morrer, imaginando somente a sua imagem gloriosa na morte, e assim eliminar o apego em relação à vida”. Afirma, ainda, com frieza, que “esse mundo é como se fosse um boneco mecanizado.”

No seu livro intitulado Budo Shoshinshu (Introdução à Filosofia do Samurai), Daidoji Yuzan (1639-1730 - estrategista) explica também que “desde o primeiro até o último dia do ano, deve-se preparar ininterruptamente para a morte. Concentrando-se na morte, não se desviará do caminho da fidelidade e da lealdade, podendo livrar-se de todos os males e infortúnios. Estará fisicamente livre de doenças e calamidades, terá longevidade, aprimorando-se o seu caráter e incorporando virtudes”.

Qualquer coisa que pudesse aumentar suas chances de sobrevivência despertava nos samurais um grande interesse. As armas e armaduras eram cada vez mais aperfeiçoadas, e instrutores profissionais, sistematicamente, ensinavam técnicas de combate, desenvolvendo suas próprias ryus (escolas ou estilos de esgrima) ou tradições e investigando métodos de preparação psicológica e espiritual. Foi na área da preparação psicológica que descobriram o valor do Zen e mais tarde da doutrina confucionista.

O bushidô constitui-se no código dos princípios morais que os guerreiros deviam observar tanto em sua vida diária como em sua profissão, ou seja, os preceitos e regras da obrigação da classe guerreira. Não se trata, contudo, de um código escrito, visto que consta, quando muito, de umas poucas máximas que correram de boca em boca ou saíram da pena de algum grande guerreiro ou sábio. Trata-se, com muito maior freqüência, de um código não enunciado que se estabeleceu não por obra de um célebre criador ou sobre a vida de um só personagem, mas sim como produto orgânico de séculos de experiência militar.

As três principais fontes do Bushido no Japão foram as filosofias budista, xintoísta e confucionista. O confucionismo alcança o seu apogeu no período Edo, sob a égide do xogunato que o adota como base filosófica de governo.

O Budismo se relaciona com o bushidô através do destemor do perigo e da morte. O samurai não temia a morte pois acreditava nos ensinamentos budistas, que pregavam a vida após a morte. Voltaria no encargo de guerreiro em suas contínuas reencarnações. Os samurais não tinham medo do perigo, as técnicas de meditação do Zen, foram usadas como um meio de limitar esse temor. Com os ensinamentos Zen os samurais buscavam entrar em harmonia com seu “eu” interior e com o mundo a sua volta. O desapego era a base do samurai, com a pratica do desapego, o samurai se tornou a maior casta de guerreiros que já existiu.

O Zen atraía a classe dos militares por diversas razões. Era o método que dava mais valor à experiência direta do que à especulação intelectual e que estimulava o desenvolvimento de uma personalidade corajosa, autoconfiante e ascética, atributos estes que um guerreiro considera sedutores. Obviamente, a capacidade de manter a calma e a mente em ordem diante da morte foi de grande utilidade para o samurai e, por isso, em toda a área de Kamakura, quando da introdução do Zen no Japão, surgiu uma forma do Zen conhecida como o Zen do Guerreiro. Como, provavelmente, os samurais não iriam se familiarizar com os textos e as histórias clássicas do Budismo chinês apareceu um método conhecido como Shikin Zen (no mesmo instante que o Zen), no qual os koans usados eram decorrentes da experiência cotidiana dos samurais, em vez dos clássicos contos chineses. Apesar dos samurais terem sido, inicialmente, atraídos para o Zen com uma finalidade prática limitada, não há dúvida de que se deve ao Zen a maturidade espiritual de muitos.

O bushidô foi influenciado, também, pelos preceitos do Xintoísmo, como a lealdade, o patriotismo, e a reverência aos seus antepassado. Com tal lealdade para com a memória de seus ancestrais, os samurais empenhavam essa mesma reverência ao imperador e ao seu daimyo ou senhor feudal. O xintoísmo também forneceu importância para o patriotismo com seu país, o Japão. Eles acreditavam que a Terra não existia apenas para suprir as necessidades das pessoas. É a residência sagrada dos deuses, dos espíritos de seus antepassados. A Terra deve ser cuidada, protegida e alimentada por um patriotismo intenso.

O Confucionismo ofereceu ao bushidô sua crença em relação aos seres humanos e suas famílias. O confucionismo ressalta o dever filial e as relações entre senhor e servo, pai e filho, marido e mulher, irmão mais velho e mais novo e entre amigos, que são seguidas pelos samurais. Junto com estas virtudes, o bushidô também prega a justiça, benevolência, amor, sinceridade, honestidade, e autocontrole. Justiça é um dos principais fatores no código do samurai, assim como o amor e a benevolência que são suntuosas virtudes dos samurais.
O bushidô significa a vida total do guerreiro, sua devoção a espada, seu respeito às normas ditadas pelo Confucionismo. Não é apenas um sistema de ética a ser seguido pelas classes sociais. É a estrada do cosmo, os vestígios sagrados dos Céus, apontando o caminho.

No que diz respeito estritamente às doutrinas éticas, os ensinamentos de Confúcio foram a maior fonte para o bushidô. A calma, a beneficência e a sabedoria de seus preceitos políticos e éticos eram particularmente atrativos para os samurais, que formavam a classe dirigente. As características aristocráticas e conservadoras de seus ensinamentos se adaptavam bem às necessidades desses guerreiros.

O bushidô, centralizado nos deveres para com os senhores, sem conflitos com os sentimentos humanos, ou melhor, os sentimentos humanos se realizam na plenitude da lealdade devida a seus superiores, numa metodologia de controle do instinto e até de autopreservação irracional em nome de um anular-se de si mesmo em prol de seus senhores e mesmo nesse campo o sentimento extático de servir confere à lealdade um caráter mais dramático do que propriamente racional. Esse tipo de sistema de pensamento caracteriza-se como porta-voz de um pensamento neoconfucionista.

Um comentário:

RH disse...

Gostei do seu blog.

Sugiro a leitura do artigo "Porquê meditar?"

http://dr-hugo-jorge.blogspot.com/2007/11/porqu-meditar.html