A Glória pela Espada - Primeira parte.
O renome dessa ordem guerreira iniciou-se à cento e três anos atrás. O evento que os diferenciou de tantos outros grupos armados que existiam naquela época tomou forma nas últimas semanas do inverno daquele ano. O sol da primavera já se abria pela vastidão das terras e do ar, o verde iniciava seu reinado pelo mundo afora, mas os ventos do inverno continuavam vigorosos, mantendo as extremidades do corpo geladas e a mente sempre alerta e hígida.
Oito Martelos de Guerra foram enviados pelo Grão-Mestre da Ordem do Martelo Rubro à Passagem Sul. Está é a única abertura viável que liga os povos do meridião ao Reino de Clonwel. Única forma para a maioria dos mortais que habitam esse mundo de sobrepujar a Grande Muralha Branca, como é chamada, entre os comuns, a cadeia de montanhas que serve como limite e proteção meridional de Clonwel.
Os oito homens haviam sido enviados para a fronteira sul à pedido do Rei para que exterminassem um pequeno grupo de pilhagem que ameaçava atravessar os Picos enevoados da Grande Muralha Branca. Pelos informes que haviam chegado à capital, o grupo era formado por não mais que duas dúzias de guerreiros Orcs que saqueavam, matavam e estupravam na planície do Vento Sul. Assim como é hoje, naquela época, o sul do Reino era povoado por pequenas e esparsas vilas. A única fortaleza era Vau d’Água à apenas trinta vôos de flecha da trilha que iniciava a subida da Passagem Sul.
Os Cavaleiros do Martelo sempre consideraram as chuvas portadoras de bons presságios dos deuses. Cedorn, o Velho, costumava dizer que não havia melhor dia para empunhar um martelo de guerra do que um dia de forte chuva. A Ordem sempre possuiu uma ligação especial com esse elemento. A água era considerada purificadora e era utilizada para ablução nos rituais. Uma tempestade antes ou durante uma batalha sempre foi considerada prenúncio de uma grande vitória. E foi sob a proteção de uma forte chuva que a pequena comitiva chegou à fortaleza. Vau d’Água possuía muros de pedra não muito altos e estava localizada numa pequena colina. Ao redor, pequenas casas de madeira com telhados de palha. Possuía também duas torres construídas com madeira onde havia sempre arqueiros de vigia e uma entrada principal com dois portões: o primeiro, que se encontrava sempre fechado, era o mais fraco, feito de barras de ferro na vertical e duas barras mais longas e grossas na horizontal; o segundo era um portão de madeira maciça pintado com o símbolo do Rei Athlone, uma águia rubra, e que só se fechava em caso de batalha.
A chuva caía sem parar transformando a terra em lama. O clima dentro da pequena fortificação estava impregnado de tensão. O local estava surpreendentemente cheio de pessoas. Não havia apenas soldados, mas também pastores, agricultores e, o que mais chamou a atenção de Amhar, o líder da comitiva, um grupo de Alanos. Caçadores nômades que tatuavam seus braços e rostos com estranhos símbolos tribais. O que saltava aos olhos não era a presença desses caçadores, que viviam do outro lado da Muralha Branca, mas sim a presença de crianças e velhos entre eles. Isso só podia significar uma coisa, pensou Amhar: “São refugiados. Para estarem tão distantes de suas planícies e florestas, com crianças e velhos, é porque estão fugindo de alguma coisa”.
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